Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar de uma ideia ou de uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que feche meu corpo quando sair de casa, que descosture meu corpo quando voltar. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando.
Fabrício Carpinejar - Quero uma mulher perdigueira
Em pleno sábado e eu já de pé às 8h. Ainda bem, pois se não fosse essa doença de acordar cedo, teria perdido a entrevista do Fabrício Carpinejar no Espaço Aberto (Canal Globonews). Ele estava conversando com o Ediney Silvestre sobre o seu novo livro "Mulher Perdigueira".
É claro que ele falou bastante sobre a crônica que dá nome ao livro ("Quero uma mulher perdigueira").
Considero esta crônica meu calcanhar de Aquiles, pois ela sempre me incomoda! Me incomodou desde quando foi postada no antigo blog do autor, em 04 de março de 2009. O incômodo foi tamanho que até postei um comentário na época. Um ano depois, postei um comentário sobre o mesmo texto no blog da querida Cínthya Verri, namorada do Carpinejar.
Por que eu me incomodo? Porque eu não sou uma mulher perdigueira e durante muitos anos fui cobrada para ser uma. No fundo, até que eu queria ser, mas eu simplesmente não consigo, não sou assim. Após cobranças diretas até passava uns dias meio perdigueira (mandava mais mensagens durante o dia, nem que fosse pra não dizer nada, ligava com maior frequencia, escondia uns bilhetinhos pela casa, etc.), mas depois voltava ao meu estilo cuidadora, sem me sentir uma mulher sufocadora/controladora. Meu dia é tão corrido, que às vezes não dá tempo nem de beber água, muito menos de mandar mensagem e ficar telefonando.
Reconheço a necessidade que o outro tem dessa expressão de afeto, pois eu também tenho, mas parece que no meu caso o que eu tinha para oferecer nunca era suficiente. Sofri um tempo por não ser como queriam que eu fosse, mas hoje em dia avalio que na verdade talvez quisessem que eu fosse uma pessoa muito diferente do que eu realmente sou.
Não sou uma mulher perdigueira, mas sou uma mulher muito especial. Sou consciente disso!
