sábado, 31 de julho de 2010

Carpinejar e o meu incômodo com a mulher perdigueira

Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar de uma ideia ou de uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que feche meu corpo quando sair de casa, que descosture meu corpo quando voltar. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando.
Fabrício Carpinejar - Quero uma mulher perdigueira

Em pleno sábado e eu já de pé às 8h. Ainda bem, pois se não fosse essa doença de acordar cedo, teria perdido a entrevista do Fabrício Carpinejar no Espaço Aberto (Canal Globonews). Ele estava conversando com o Ediney Silvestre sobre o seu novo livro "Mulher Perdigueira".
É claro que ele falou bastante sobre a crônica que dá nome ao livro ("Quero uma mulher perdigueira").
Considero esta crônica meu calcanhar de Aquiles, pois ela sempre me incomoda! Me incomodou desde quando foi postada no antigo blog do autor, em 04 de março de 2009. O incômodo foi tamanho que até postei um comentário na época. Um ano depois, postei um comentário sobre o mesmo texto no blog da querida Cínthya Verri, namorada do Carpinejar.
Por que eu me incomodo? Porque eu não sou uma mulher perdigueira e durante muitos anos fui cobrada para ser uma. No fundo, até que eu queria ser, mas eu simplesmente não consigo, não sou assim. Após cobranças diretas até passava uns dias meio perdigueira (mandava mais mensagens durante o dia, nem que fosse pra não dizer nada, ligava com maior frequencia, escondia uns bilhetinhos pela casa, etc.), mas depois voltava ao meu estilo cuidadora, sem me sentir uma mulher sufocadora/controladora. Meu dia é tão corrido, que às vezes não dá tempo nem de beber água, muito menos de mandar mensagem e ficar telefonando. 
Reconheço a necessidade que o outro tem dessa expressão de afeto, pois eu também tenho, mas parece que no meu caso o que eu tinha para oferecer nunca era suficiente. Sofri um tempo por não ser como queriam que eu fosse, mas hoje em dia avalio que na verdade talvez quisessem que eu fosse uma pessoa muito diferente do que eu realmente sou.
Não sou uma mulher perdigueira, mas sou uma mulher muito especial. Sou consciente disso!

sábado, 10 de julho de 2010

A casa e o jardim

Não havia nada planejado. Não pensava que iria conhecer uma casa onde sentisse vontade de entrar, de conhecer seus cômodos e as histórias que já abrigaram. Simplesmente aconteceu.
Inicialmente sentiu-se atraído pela fachada, a qual lhe pareceu bonita. Depois de contemplá-la observou que existia uma porta entreaberta. O desejo de entrar para conhecer seu interior foi irresistível. Entrou com a cautela que é necessária quando se chega a um lugar novo, desconhecido. Seus olhos eram de curiosidade, revistavam tudo com muita atenção, como se não quisessem perder nenhum detalhe.
Percebeu que até bem pouco tempo aquele espaço, hoje aparentemente vazio, estava habitado. Parecia ter sido deixado repentinamente, pois ainda encontrou alguns objetos de uso pessoal espalhados pelos cômodos, como se a partida tivesse sido inesperada, sem que houvesse tempo para recolher os pertences. Questionou-se o que haveria motivado tal saída? Afinal, tudo lhe parecia tão bonito, aconchegante e acolhedor. Os vestígios (fotos, recortes, objetos, odores) davam sinal de uma convivência feliz.
Após percorrer todos os cômodos, chegou ao jardim. Ali percebeu que faltou cuidado do(s) antigo(s) morador(es): as plantas estavam murchas, a ponto de morrerem. Faltou água, troca de terra e de vaso. Faltou atenção e cuidado. Uma pena, pois parecia ter sido um jardim bonito.
Felizmente, parece que chegou a tempo de socorrer o jardim. Como que por instinto, tal como se socorre alguém que está morrendo, pegou água para regar as plantas, improvisou uma pá de jardinagem e em algumas horas sentiu-se com a sensação de dever cumprido. Afinal, aquele jardim estava destoando daquela casa tão bonita.
Sabia que aqueles primeiros socorros não garantiriam a salvação do jardim. Seria necessário voltar àquela casa, aquele jardim. Sentiu-se importante e necessário para aquela casa. Estava pronto para voltar ali todos os dias, quantas vezes fossem necessárias. Percebeu então que o cuidado com o jardim era a justificativa que precisava para voltar outras vezes àquela casa, onde se sentiu tão confortável.
De alguma forma, sentia retribuição por parte da casa. Talvez por isso, sabia que iria voltar.