sábado, 8 de setembro de 2012

Lembranças no papel

A tecnologia é maravilhosa e muitas vezes viciante. Não me imagino mais sem acessar a minha conta do Gmail. O Email  nos proporciona ter acesso as informações de maneira rápida e eficiente, e em algumas situações isso é fundamental. Fico imaginando quanto tempo as pessoas ficavam esperando para receber uma carta contando notícias de uma pessoa querida que estava longe, e o pior é que quando a carta chegava às mãos do destinatário, já devia estar até desatualizada!
Ainda assim, eu adoro o bom e velho papel! Ontem, depois de ter encontrado dentro de um livro, um postal do Parque do Ibirapuera, enviado em 2007 por um amigo recém-mudado para São Paulo, eu fiquei pensando em mil argumentos pra não abandonarmos nunca hábitos antigos como escrever cartas, diários, bilhetinhos, enfim, qualquer coisa que nos permita a possibilidade de sermos surpreendidos por lembranças gostosas de pessoas e situações importantes. Sim, porque em se tratando de papel temos essa vantagem: se você não quer entrar em contato com registros que não são mais desejáveis de serem vistos, existem duas opções: rasgar e jogar no lixo ou colocar tudo dentro de uma caixa e guardar em lugar inacessível. Eu prefiro essa opção, pois um dia pode-se querer visitar as caixas do passado como se dessa forma pudéssemos visitar o nosso museu pessoal. 
Todos os outros papéis legais (incluindo dinheiro!), eu gosto de guardar despretensiosamente em livros que eu sei que um dia qualquer eu irei reler.  Recentemente, outra alegria recebida de dentro de um livro ("Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", da Clarice Lispector) foi uma carta recebida no Natal de 2010, do então namorado e hoje marido. Na leitura atual daquela carta, tudo que estava sendo dito naquela época fez muito mais sentido e isso me deixou ainda mais feliz.
Acho melhor deixar tudo isso registrado no meu caderninho vermelho de anotações... 


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Tocada pelos Intocáveis


De 15 a 23 de agosto, Belém é uma das 33 cidades no Brasil sediando o Festival Varilux da Cinema Francês, que apresenta no circuito local 17 produções francesas de sucesso.
Um dos filmes em exibição é "Intocáveis" (Intouchables), adaptação de um documentário baseado no livro "O Segundo Suspiro", que conta a vida de Philippe Pozzo di Borgo, milionário francês que fica tetraplégico após um acidente de parapaint. O filme, apesar do enredo, tem mais jeito de comédia do que de drama e é um dos maiores sucessos do cinema francês, tendo arrebatado plateias por toda a  Europa.
Pra mim foi impossível não assistir ao filme tendo como referencia o belíssimo "Mar Adentro", que conta a história do espanhol Ramón Sampedro, também tetraplégico. E a similaridade entre os dois filmes pára por aí. Ambos são belíssimos, porém retratam perspectivas totalmente diferentes sobre a condição de seus protagonistas: enquanto Ramón decide que sua dignidade encontra-se na morte e passa a brigar pelo direito de morrer, Philippe mostra-se conformado em seguir vivendo, apesar de sua condição de limitação e de dependência total. Ressalto que pra mim, ambas as escolhas são legítimas e válidas. Eu mesma talvez me contaminasse muito mais facilmente pelo desejo de morte. 
Fiquei me questionando desde a saída do cinema, o que teria levado esses dois homens em condições tão semelhantes a terem reações tão distintas? Pra mim, Philippe foi "contaminado" por vida graças à presença e à amizade de um cuidador bastante inusitado (Driss, no filme, Abdel na vida real), que transbordava vida. Ramón, por sua vez, "contaminou" aqueles que estavam próximos de morte. Percebi que para Philippe, parecia não haver um sentimento de culpa relacionado ao fato de estar de alguma forma atrapalhando a vida de outras pessoas, em função dos cuidados que demanda, já que seus cuidadores são profissionais contratados para isso, e não amigos ou familiares que se veem obrigados a desempenhar esse papel por uma questão de humanidade e/ou caridade, como no caso de Ramón Sampedro. 
Para Philippe, manter-se vivo custa muito caro, mas isso não se configura como mais um problema em sua vida, já que ele tem plenas condições financeiras para bancar isso. Porém, é Driss quem passa a lhe dar motivação para usar o dinheiro, não apenas como garantia de sobrevivência, mas como elemento que lhe dá  acesso à diversão (das mais caras até as mais simples). E essa possibilidade de diversão só passa a ser possível quando além do dinheiro ele passa a ter uma amizade, e isso o seu dinheiro não poderia comprar nunca.
Tenho certeza de que quem foi assistir à "Intocáveis", saiu do cinema tocado de alguma forma. Quem ainda não viu, vale a pena conferir!



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Fé nas pessoas

 (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.

Vivemos um tempo de falta de fé. Não a fé no seu sentido religioso, mas no que diz respeito a uma sensação relevante no relacionamento entre as pessoas, de entrar em contato com um sentimento de absoluta confiança, seja em uma ideia ou em uma pessoa. 
Crença e confiança cegas não são saudáveis, pelo contrário: "a desconfiança é o farol que guia o prudente" (Shakespeare), e ser prudente ajuda na nossa sobrevivência emocional, porém, duvidar de tudo e de todos, é terrível e angustiante.
Parece que é necessário cultivarmos uma certa inocência para nos mantermos crédulos, mas infelizmente a vida dificilmente permite que isso aconteça. Inevitavelmente, surgem pessoas em nossa vida que acabam destruindo nossa inocência e com ela levam junto a nossa fé. 
Reconstruir a inocência é impossível, mas a fé, essa pode e deve ser reconstruída sempre que for destruída, caso contrário, a convivência com as pessoas passa a ser muito mais difícil e sofrida.
A vantagem é que com o tempo, e talvez por não sermos mais (tão) inocentes, aprendemos a identificar em quem podemos e devemos ter fé.


terça-feira, 19 de junho de 2012

A Cidade dos Mortos

Nunca havia estado naquele lugar antes. Tudo era novidade e o meu olhar era curioso em relação a tudo que via. Medo? Não, não havia nenhum.
É uma cidade. Tem seus moradores, leis, administração própria, mapa que indica as quadras, os nomes das ruas e os números dos domicílios. Tudo para facilitar a localização dos visitantes naquela cidade desconhecida, temida por muitos e visitada somente por obrigação e/ou devoção.
Como em qualquer cidade, existe uma divisão social que pode ser rapidamente percebida: as famílias mais ricas e tradicionais estão em melhor localização (nas ruas principais), possuem fachada suntuosa e muito bem cuidada, já os meros mortais (literalmente), têm morada mais simples, nem sempre com boa manutenção, ficam em lugares onde o acesso é mais difícil e geralmente há mato cobrindo a entrada da moradia. 
Apesar dessas diferenças, nesta cidade todos têm uma condição que os tornam irreversivelmente iguais: a ausência de vida. E para os que ainda não são moradores dessa cidade (ou de outras semelhantes a essa), o que mais incomoda é a certeza de que um dia, cedo ou tarde, estaremos indo para ela, seja na condição de visitante ou na condição de morador perpétuo.