segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Tocada pelos Intocáveis


De 15 a 23 de agosto, Belém é uma das 33 cidades no Brasil sediando o Festival Varilux da Cinema Francês, que apresenta no circuito local 17 produções francesas de sucesso.
Um dos filmes em exibição é "Intocáveis" (Intouchables), adaptação de um documentário baseado no livro "O Segundo Suspiro", que conta a vida de Philippe Pozzo di Borgo, milionário francês que fica tetraplégico após um acidente de parapaint. O filme, apesar do enredo, tem mais jeito de comédia do que de drama e é um dos maiores sucessos do cinema francês, tendo arrebatado plateias por toda a  Europa.
Pra mim foi impossível não assistir ao filme tendo como referencia o belíssimo "Mar Adentro", que conta a história do espanhol Ramón Sampedro, também tetraplégico. E a similaridade entre os dois filmes pára por aí. Ambos são belíssimos, porém retratam perspectivas totalmente diferentes sobre a condição de seus protagonistas: enquanto Ramón decide que sua dignidade encontra-se na morte e passa a brigar pelo direito de morrer, Philippe mostra-se conformado em seguir vivendo, apesar de sua condição de limitação e de dependência total. Ressalto que pra mim, ambas as escolhas são legítimas e válidas. Eu mesma talvez me contaminasse muito mais facilmente pelo desejo de morte. 
Fiquei me questionando desde a saída do cinema, o que teria levado esses dois homens em condições tão semelhantes a terem reações tão distintas? Pra mim, Philippe foi "contaminado" por vida graças à presença e à amizade de um cuidador bastante inusitado (Driss, no filme, Abdel na vida real), que transbordava vida. Ramón, por sua vez, "contaminou" aqueles que estavam próximos de morte. Percebi que para Philippe, parecia não haver um sentimento de culpa relacionado ao fato de estar de alguma forma atrapalhando a vida de outras pessoas, em função dos cuidados que demanda, já que seus cuidadores são profissionais contratados para isso, e não amigos ou familiares que se veem obrigados a desempenhar esse papel por uma questão de humanidade e/ou caridade, como no caso de Ramón Sampedro. 
Para Philippe, manter-se vivo custa muito caro, mas isso não se configura como mais um problema em sua vida, já que ele tem plenas condições financeiras para bancar isso. Porém, é Driss quem passa a lhe dar motivação para usar o dinheiro, não apenas como garantia de sobrevivência, mas como elemento que lhe dá  acesso à diversão (das mais caras até as mais simples). E essa possibilidade de diversão só passa a ser possível quando além do dinheiro ele passa a ter uma amizade, e isso o seu dinheiro não poderia comprar nunca.
Tenho certeza de que quem foi assistir à "Intocáveis", saiu do cinema tocado de alguma forma. Quem ainda não viu, vale a pena conferir!



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